Apoio à ditadura: Será difícil aceitar as desculpas da Rede Globo, diz Pont

O presidente do PT/RS, deputado Raul Pont comentou editorial, lido no JN desta segunda-feira por William Bonner, em que a empresa admite que errou ao apoiar o golpe militar de 1964
Raul Pont (PT) ocupou a tribuna do plenário da Assembleia Legislativa, na tarde desta terça-feira (03), para comentar o editorial da Rede Globo apresentado durante o Jornal Nacional, na noite desta segunda-feira (2) pelo jornalista William Bonner, em que a empresa da família Marinho admite que errou ao apoiar o golpe de 1964 e pede desculpas pelos equívocos decorrentes disso ao longo dos anos seguintes. “Quase caí da cadeira”, ironizou Pont. “Cinquenta anos depois!”, acrescentou. Para ele, vai ser muito difícil para quem sofreu com as perseguições da ditadura desculpar a Globo.
Sob o título “Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro”, o texto lido pelo apresentador do JN começa dizendo que “Desde as manifestações de junho, um coro voltou às ruas: “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”. De fato, trata-se de uma verdade, e, também de fato, de uma verdade dura”, admite o editorial. “Já há muitos anos, em discussões internas, as Organizações Globo reconhecem que, à luz da História, esse apoio foi um erro”, acrescenta o comunicado oficial da maior empresa de comunicações do Brasil e uma das maiores do mundo, como para reforçar seu arrependimento.
Pont ressaltou da tribuna que o editorial está cheio de explicações, dizendo que o momento do país era difícil, marcado pela guerra fria e com um acirramento político muito duro e, principalmente, apontando que o movimento militar ocorreu como “um golpe democrático preventivo”, contra uma possibilidade de golpe que viria do próprio presidente eleito (João Goulart). Mas, apesar dessas ressalvas, o texto que expressa a posição oficial da empresa reconhece o equívoco da sua posição diante da derrubada à força, contra a Constituição, de quem estava na presidência.
“Não é algo menor (o reconhecimento do erro pela Globo), acho que ao menos ontem consegui revigorar a minha esperança na humanidade, afinal, depois de meio século as pessoas reconhecerem o erro sempre é bom”, ponderou. Bonner também disse, lendo o editorial, que a Rede Globo precisa se desculpar de todos os erros que cometeu ao longo desse período da ditadura, a partir desse pecado original. “Será difícil desculpar, para quem foi preso, torturado, para quem assistiu durante décadas este jornal, esta televisão, inventar versões, mentir ao povo brasileiro, para esconder fatos, plenamente comprovados, quantas vezes, de pessoas mortas dentro do Doi-Codi, da Operação Bandeirantes, do Dops de São Paulo, que eram retiradas mortas de lá para simular um acidente, para dizer que a pessoa morreu por atropelamento ou que foi baleada quando tentava fugir”, rememorou Pont.
Estas versões mentirosas da ditadura, continuou, ganhavam ares de veracidade no dia seguinte pela reprodução que lhes davam os meios de comunicação, principalmente a Rede Globo. O próprio editorial, inclusive, cita outros jornais, como a Folha e o Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e Correio da Manhã, que tiveram a mesma atitude de cumplicidade e apoio total ao golpe. O deputado disse ainda esperar que seja verdadeira a declaração que encerra o texto: “À luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma”.
“Cinquenta anos depois!”, repetiu o deputado. “Mas se isto veio de boa fé, devemos ter uma postura condescendente de que talvez o jornal busque um novo momento, um novo caminho”, disse. “Mas eu tenho absoluta certeza que aquilo que aconteceu, os males que isso trouxe para o país, isso não tem retorno, assim como não tem retorno as inúmeras concessões e canais de rádio e televisão que esse grupo recebeu de mão beijada, porque era o arauto da ditadura, o defensor incondicional e a justificadora de todas as questões que eram escondidas no seu noticiário. Essas questões certamente o povo brasileiro ainda terá o direito de continuar cobrando”, concluiu.
Com PTSUL

 

Leitor compara médicos e professores

Postado por Juremir em 2 de setembro de 2013 - Uncategorized
Sobre salários e estruturas
Delmar Bertuol
A Secretaria Estadual de Educação contrata estudantes para darem aula. Sim, acadêmicos de licenciatura a partir do 4º semestre (em muitos casos isso é menos da metade do curso) podem dar aulas para até o Ensino Médio no Rio Grande do Sul. Por que o Estado contrata esses estudantes e lhes dá regência de classe? Porque muitos profissionais formados não querem trabalhar na Educação Básica Estadual. E por que não querem? Porque o Estado paga mal.
O Governo Federal está contratando médicos estrangeiros formados para atuarem no interior do Brasil. Por que o Governo Federal está importando esses profissionais? Porque muitos médicos brasileiros não querem trabalhar no interior. E por que não querem? Porque preferem ficar nos grandes centros urbanos, onde ganham o mesmo salário.
Um professor em fim de carreira no Rio Grande do Sul, depois de talvez ter sofrido algumas agressões físicas e com certeza ter sofrido diversas agressões morais ganha no máximo, chutando alto, R$ 3.500,00. Um recém contratado ganha metade disso.
O Governo Federal está oferecendo salário de R$ 10.000,00 para os médicos atenderem no interior. Os “doutores” acusam o Estado de escravidão.
Os hospitais não têm infraestrutura adequada e faltam materiais.
Nas escolas, ocorre o mesmo fenômeno.
Quando eu estava no 4º semestre fui Professor no Estado. Meus colegas me receberam com alegria. Disseram-me que há tempos faltava Professor de História, que eu fosse muito bem-vindo.
Um médico cubano não no 4º semestre, mas formado, foi recebido com vaias pelos novos colegas brasileiros. Disseram que ele era desnecessário aqui.
Muitos idealistas defendem que o salário de um professor deveria ser no mínimo de R$ 10.000,00. Uma Lei Nacional garante R$ 1.500,00. O Rio Grande do Sul não cumpre a lei. Se os professores entram em greve reivindicando isso e melhor infraestrutura nos educandários, são tachados de desocupados. Sabiam que a vida de professor era miserável. Por que aceitaram trabalhar nisso?
Muitos idealistas defendem que os médicos deveriam ter uma Carreira de Estado, tal quais juízes e promotores. Claro que o salário se equipararia. Mais de R$ 20.000,00. Se um professor guardasse seu salário por um ano, chegaria fácil fácil nessa cifra. Quando os médicos fazem greve reivindicando isso e melhor infraestrutura nos hospitais, são aplaudidos pela média conservadora. São heróis

 

 Artigo: AS VÉSPERAS DE UMA GUERRA OBSCENA, por Tariq Ali

No London Review of Books | Tradução: Vinícius Gomes
O objetivo da “guerra limitada” organizada pelos EUA e seus vassalos europeus é simples. O regime sírio estava lentamente restabelecendo seu controle sobre o país, contra a oposição armada pelo Ocidente e seus Estados tributários na região (Arábia Saudita e Qatar). Essa situação exigia correção. Nessa deprimente guerra civil, era preciso fortalecer militar e psicologicamente a oposição.
Desde quando Obama afirmou que as armas químicas era a “linha-limite”, era claro que elas seriam utilizadas. Cui prodest? como costumavam perguntar os romanos. Quem se beneficia? Claramente, não o regime sírio.
Há várias semanas, dois jornalistas do Le Monde já tinham descoberto as armas químicas. A questão é: de fato foram usadas, quem as lançou? O governo Obama e seus seguidores gostariam que acreditássemos no seguinte enredo: Assad permitiu que os inspetores de armas químicas da ONU entrassem na Síria; então, anunciou a chegada deles lançando um ataque de armas químicas contra mulheres e crianças, a mais ou menos 15 quilômetros do hotel onde estavam hospedados. Isso simplesmente não faz sentido. Quem, então, cometeu a atrocidade?
No Iraque, sabemos que foram os EUA a utilizar “fósforo branco” em Fallujah, em 2004 (não havia “linhas-limites” exceto aquelas traçadas no chão por sangue iraquiano). Portanto, a justificativa é tão turva quanto nas guerras anteriores.
Desde a invasão e guerra no Iraque, o mundo árabe está dividido entre sunitas e xiitas. Apoiando a invasão à Síria estão dois velhos conhecidos: Arábia Saudita e Israel. Ambos querem o regime do Irã destruído. Os sauditas, por disputas de facção; os israelenses, por estarem desesperados para acabar com o Hezbollah. Esse é o grande objetivo que têm em mente e Washington, após resistir por um tempo, está voltando a considerá-lo. Bombardear a Síria é o primeiro passo. (…)
Os iranianos reagiram fortemente e ameaçaram retaliação apropriada. Pode ser um blefe, mas o que isso revela é que até o novo líder “moderado”, prestigiado pela mídia ocidental, assumiu posição não distinta à de Ahmadinejad. Teerã compreende bem o que está em jogo e por quê. Cada uma das intervenções ocidentais no mundo árabe e seus arredores tornou as condições piores. Os ataques que estão sendo planejados pelo Pentágono e suas filiais na OTAN provavelmente terão o mesmo padrão.
Enquanto isso, no Egito, um Pinochet árabe está restaurando a “ordem” da velha maneira violenta já consagrada e com o apoio dos líderes, ligeiramente constrangidos, do conglomerado EUA/Europa.