Agenda internacional: escalada de violência na Ucrânia
O final de semana na Ucrânia foi extremamente violento, deixando um saldo de mais de oitenta mortos no país, 46 apenas da cidade de Odessa.
Flávio Aguiar, de Berlim/Marcelo Justo, de Londres/Emir Sader, do Rio de Janeiro
Ucrânia
Depois de um fim de semana extremamente violento, deixando um saldo de mais de oitenta mortos no país, 46 apenas da cidade de Odessa, o Ministro de Relações Exteriores da Alemanha propôs na segunda-feira, 5 de maio, uma nova rodada de negociação entre Estados Unidos, Rússia, governo de Kiev e União Europeia para tentar ressuscitar o acordo de Genebra.
A atmosfera geral entre comentaristas da cena internacional é de que a Ucrânia caminha a passos largos para uma guerra civil ou já está nela.
As forças do governo de Kiev têm tentado retomar o controle de várias cidades no leste do país, mas com um sucesso pequeno, porque depois que elas passam os separatistas voltam a erguer suas barricadas. Na segunda-feira o conflito se agravou em torno da cidade de Slavyanski. Há informes sobre mais mortos, sem precisarem números. Durante o fim de semana já foram registradas 42 mortes em enfrentamentos na região.
Os acontecimentos mais graves se deram na cidade de Odessa, onde depois de um primeiro de maio agitado, em que as manifestações de trabalhadores transformaram-se em protestos contra o governo de Kiev, grupos pró-Kiev, muitos de extrema-direita ligados ao chamado “Setor da Direita” assaltaram a sede do Sindicato dos Comerciários, deixando um saldo de quarenta e seis mortos, na grande maioria descritos como “pró-russos”. Grande parte destas vítimas fatais morreram queimadas ou sufocadas pelo incêndio que tomou conta do prédio, ou ainda saltando pelas janelas para escapar ao fogo. A polícia nada fez, limitando-se a prender sobreviventes que conseguiam sair do prédio. No domingo um grupo de simpatizantes invadiu a principal delegacia de polícia, onde eles estavam detidos, e libertou os prisioneiros. Até mesmo autoridades de Kiev criticaram o comportamento omisso da polícia local duranteo conflito entre os grupos, prendendo depois apenas os membros dos chamados "pró-
russos".
É muito difícil atravessar a verdadeira cortina de “russo-fobia” montada na mídia ocidental e se informar com alguma segurança, ainda que relativa, sobre o que está acontecendo. A melhor atitude é a de buscar os relatos dos repórteres que estão nos locais dos acontecimentos, cujo relato seguidamente conflita com a orientação editorial mais comum de que tudo se deve à renovação do apetite russo por alargar as fronteiras de sua influência. Um bom exemplo disto é a insistência na tecla de que o maior e mais iminente perigo é a invasão russa do leste da Ucrânia, enquanto o que aconteceu de fato até agora é que Moscou enviou uma delegação para ajudar a convencer os grupos separatistas a libertar os reféns da missão de observadores militares da União Europeia que estavam em seu poder.
Há reportagens interessantes feitas in loco nos sites do The Guardian e do New York Times, pelo menos. A mídia oficial russa oun para-oficial russa também é muito parcial, mas há uma série de blogs independentes que comentam os acontecimentos com mais isenção, embora muitos destes estejam apenas em russo.
Na segunda, 5, e na terça, 6, os ministros de energia da União Europeia estarão reunidos para discutir o estado da arte no setor, diante da ameaça de que, caso o conflito se intensifique, a Rússia corte ou diminua as exportações de gás natural para seus países. Como uma intervenção militar não parece ser a melhor opção para a Rússia, a possibilidade de uma retaliação no plano energético se torna mais provável.
A crise ucraniana está provocando um realinhamento internacional, com a Rússia voltando-se mais para os mercados asiáticos e tendendo a se aproximar mais dos BRICS, voltando a se editar um desenho bipolar, com Rússia/BRICS de um lado e EUA/UE do outro.
ONU, Vaticano e abuso sexual
Na segunda e na terça-feiras a Comissão de Direitos Humanos da ONU, responsável pelo monitoramento internacional de temas como a tortura, começa a ouvir testemunhos de membros do Vaticano sobre como a Igreja Católica tratou as denúncias de abusos sexuais contra crianças. As audiências se estenderão por três semanas. Enquanto isto o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon viaja à Roma, onde será recebido pelo presidente Giorgio Napolitano e também pelo papa Francisco I. Ban Ki-moon deverá presidir a reunião bi-anual do Diretório Executivo da ONU, cujos membros também serão recebidos pelo papa.
OCDE
Na segunda-feira a OCDE – Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos abre sua reunião anual. Na pauta estão as previsões para as economias dos 34 países membros durante o próximo semestre. Estes países representam hoje 49 % do PIB mundial, enquanto que em 2005 representavam 60%. Participam mais de 2000 pessoas que, além de virem dos países membros, vêm também de mais 46 nações. São líderes mundiais, minjistros, diretores de ONGs, representantes dos mundos acadêmico e sindical.
Chipre – Alemanha
Na terça-feira o presidente do Chipre, Nicos Anastasíades, se reune com a chanceler Angela Merkel em Berlim. Na pauta, a situação econômica do Chipre e também os conflitos na região entre cipriotas gregos e turcos.
Grécia
A partir de segunda-feira o governo grego abre nova rodada de negociação, em Bruxelas, com os credores ínternacionais de sua dívida pública. Apesar da ajuda de 240 bilhões de euros já recebida e dos cortes nos montantes dos débitos, a dívida grega ainda representa 175% do seu PIB anual. Na pauta estarão a possibilidade de novos cortes e o alongamento dos prazos para pagamnento de 30 para 50 anos.
Itália
Na terça-feira a Itália leiloa 40 tesouros culturais, como a ilha Poveglia na laguna de Veneza, um forte do século XV e a hospedaria em Loreto para peregrinos cristãos. A venda tem por objetivo diminuir o déficit público para cumprir com as normas de orçamento da União Europeia. O Estado italiano detém a posse de mais de 500 mil propriedades, incluindo residências e prédios comerciais, mas a complexidade da regulamentação legal sobre a venda de edifícios com valor histórico dificulta as vendas.
Líbano
Na quarta-feira, 7, o Parlamento do país se reúne pela segunda vez para tentar eleger um novo presidente, que deve provir da comunidade cristã maronita. No dia de 30 abril dezenas de deputados boicotaram a eleição do sucessor do atual presidente, Michel Suleiman, cujo mandato termina no dia 25 de maio.
África do Sul
Também na quarta-feira, 7, realizam-se as eleições nacionais e provinciais na África do Sul. Os eleitores devem escolher os membros da Assembléia Nacional (400) e das assembléias das nove províncias do país. Posteriormente a AN elege o presidente, e as assembléias provinciais escolhem os governantes locais e mais os 70 membros do Conselho Nacional de Assembléias Provinciais. Há 29 partidos no país, dos quais 12 têm representantes no parlamento nacional. O favorito é o Congresso Nacional Africano, do atual presidente Jacob Zuma. As pesquisas de opinião indicam uma votação de 63 a 66%. Em segundo lugar vem a Aliança Democrática, liderada por Hellen Zillie, com algo entre 22 e 23% das intenções de voto. A eleição trasncorre em meio a denúncias de manipulação porm parte do governo e num cenário social agitado, com greves nas minas de platina.
Egito
Começa a campanha para a eleição presidencial. O favorito é o ex-chefe das Forças Armadas, Abdel Fatah al-Sisi, que detém 72% das intenções de voto. Em sua apresentação enfatizou o combate à carestia de alimentos, o reerguimento da economia e estimular a “unificação” do país. Há somente um candidato de oposição, Hamden Sabahi, que aparece com suspeitos 2% nas intenções de voto, uma vez que no pleito de 2012 ele obteve uma votação bem maior do que esta.
Ao apresentar sua candidatura, defendeu a necessidade de reestabelecer a plena liberdade de manifestação. É bom lembrar que há 720 membros da Irmandade Muçulmana condenados à morte, no que a Anistia Internacional considera o maior número de sentenciados à pena máxima num único julgamento. Enquanto isto os países do Ocidente, aparentemente, vêm fazendo vista grossa diante destas condenações. A Corte Suprema deste país deve ainda julgar nesta semana o pedido do governo para que o governo do Qatar seja considerado “terrorista”, por ter dado asilo a muitos membros da Irmandade.
Japão e União Europeia
O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe visita Bruxelas, onde se reunirá com Herman Van Rampuy, presidente do Conselho Europeu, e José Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia, discutindo as relações entre seu país e a UE e também a situação da economia mundial.
Panamá: resultado da eleição
Surpreendentemente, diante das últimas pesquisas de intenção de voto, o candidato preferencial do atual presidente Ricardo Martinelli, José Domingos Arias, com 32% dos votos, perdeu a eleição para o dissidente Juan Carlos Varela, vice-presidente que rompeu com Martinelli, e obteve 39% da votação. O candidato mais à esquerda, Juan Carlos Navarro, do Partido Revolucionário Democrático, do ex-presidente Omar Torrijos, ficou em terceiro.
Em compensaçào, este partido posicionou-se muito bem na eleição para o legislativo nacional, ficando com 22 das 71 cadeiras. O partido de Arias, que ficou com apenas 12 cadeiras, terá de negociar com o PRD, pois o partido da dupla Martinelli/Arias, o Centro Democrático, ficou com 29 cadeiras.
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